Especial Nada | Oração da Carne | Com as Tripas ao Sol

texto e encenação de João Garcia Miguel

Ficha Técnica e Artística

Direcção, Espaço Cénico e Texto: João Garcia Miguel
Elenco: Sean O’Callaghan, Sara Ribeiro e Duarte Melo
Música: Vítor Rua
Assistência de Encenação: Rita Costa
Figurinos e Apoio à Cenografia: Rute Osório de Castro
Direcção de Produção: Georgina Pires
Produção Internacional: Vesela Molovska
Assistente de Produção: Telma Grova
Desenho de Luz: Roger Madureira e JGM
Direção Técnica: Roger Madureira
Fotografia e Promoção: Mário Rainha e Joana Júdice
Imagem e Comunicação: Joana Júdice
Assessoria de Imprensa: Alcina Monteiro
Assessoria Dramatúrgica ao Movimento: Luca Aprea
ApoioTécnico - AUDEX

Technical and Artistic List

Director, Scenic Space & Text: João Garcia Miguel
Cast: Sean O’Callaghan, Sara Ribeiro & Duarte Melo
Music: Vítor Rua
Assistant Director: Rita Costa
Costumes & Scenography Assistant: Rute Osório de Castro
Production Manager: Georgina Pires
International Production: Vesela Molovska
Production Assistant: Telma Grova
Light Design: Roger Madureira & JGM
Technical Direction: Roger Madureira
Images & Promotion - Mário Rainha & Joana Júdice
Image & Communication: Joana Júdice
Press Assessor: Alcina Monteiro
Dramaturgical Assistance for Movement: Luca Aprea
Technical Support: AUDEX

Co Produção

Companhia João Garcia Miguel & Teatro Ibérico | Teatro Cine de Torres Vedras & Câmara Municipal de Torres Vedras | Teatro Aveirense & Câmara Municipal de Aveiro

Coproduction

Companhia João Garcia Miguel & Teatro Ibérico, Teatro Cine de Torres Vedras & Torres Vedras Municipality and Teatro Aveirense & Aveiro Municipality

Apoios

A Companhia João Garcia Miguel tem o apoio para o quadriénio 2018-2021 do Ministério da Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura e da Direcção Geral das Artes

Supports

Cia. João Garcia Miguel has the support for the four-year program 2018 - 2021 of the Ministry of Culture, the Secretary of State for Culture & the Directorate General of Arts

Parceiros

A Companhia João Garcia Miguel & Teatro Ibérico têm o apoio da CML, Junta de Freguesia do Beato e IEFP

Partners

Companhia João Garcia Miguel & Teatro Ibérico have support from Lisbon Municipality, Beato Parish Council and IEFP
Sinto a escrita como um gesto interior que ao passar para fora — para o mundo partilhado — semelhante a colocar as tripas ao sol, ou talvez melhor seja dizer, quando escrevo faço das tripas coração. Ou, neste caso, construo uma oração da carne. Ou talvez seja apenas um gesto especial que é nada, afinal. Um engano maravilhoso do coração levado pela cabeça. O que há de doloroso e temível nesse ponto estranho e intraduzível que se chama coração? Ou pulmão, espinha dorsal ou luzes instantâneas por detrás dos olhos? São todos pontos espalhados naquilo que inegavelmente chamamos de forma obscura: o corpo. E que ligam, à luz dos dias, o que está no fundo ao que passa para cima. Os intestinos à boca, o coração à mão. Há anos que persigo essa sensação que teima em escapar-se como se fosse um papel que esteja guardado entre milhares de outros despojos que a vida e a confusão foi acumulando — neste caso eu — em prateleiras, caixas e cápsulas do tempo. É um sentimento de estar perdido e de procurar sem encontrar. Algo impreciso, confuso e sem nomes para dar. Nem linguagem existe que o satisfaça e lhe dê caminho. É algo do domínio e território dos sonhos. Por isso, estes textos, são derivas de leituras e de encontros com os outros que afinal são eles os órgãos do meu corpo exposto ao acontecer da existência quotidiana. Nós somos a mesma pessoa, mas não somos a mesma pessoa. A conversa e o falar são formas de arte que praticamos sem cessar e que nos parecem sem importância. Mas não o são. Amo, no prazer sentido da carne, outros autores e o propósito de citar e criar a partir de acumulações sucessivas de frases e textos alheios. O vaguear sobre as obras de terceiros tornou-se natural obsessão, o que levou, a que mantivesse em mim um impedimento de encontrar o tal ponto do coração, esse órgão fonte, bomba de calor a partir do qual se espalha o sangue e se desenvolve a carne que envolve o mundo e me envolve a mim também. Por isso, nos últimos dias que precedem o começo de uma nova obra, sonho com um tema repetido. Um sentimento que caminha perdido no corpo sem encontrar forma de sair para fora. O horror de não descobrir caminhos ou não encontrar os documentos — as ideias luminosas — que tinha mesmo agora ali, aqui à frente de mim e ninguém sabe onde estão ou quem os retirou dali. Ou como quem diz, as palavras, as ideias, as imagens, os sentidos. Desconfio de mim. Creio mesmo que fui eu, o próprio que tirou da frente, o que lá estava para me angustiar e mistificar a busca permanente. Como um lago escuro onde me escondo e sem sucesso se me esgota o procurar. E o mais curioso é perceber que é isso que me dá prazer. O estar e ficar numa situação de sofrimento, confusão e indecisão que me permite continuar a caminhada. Um absoluto absurdo de ser um ser confuso e daí retirar prazer e imensidão. Levei tempos a perceber a relação entre tantas coisas, que sempre surgem, quando nos é permitido dizer. Agora que estou nesta fase de decidir o que falar com a nova criação — a relação entre procurar ideias e dar-lhes sentido e alguma ordem — remeto-me de novo ao impulso fonte que me faz repetidamente querer conceber. De forma aguda tenho passado o tempo em busca de uma voz. Algo meu e que a partir de mim me faça jus ao mundo interior em que me vejo movimentar e no qual fujo de mim também. Tenho por isso lido e pensado, escrito e rescrito vezes sem conta frases que são minhas e dos outros. Aos poucos vou sentido emergir o que é meu. Mas resta sempre aquele sentido que podia ter feito mais e melhor. Que podia ter ido mais alto e mais longe. Essa sensação, poucas vezes conseguida, de sobrepor o animal que existe dentro da carne ao outro animal que existe em público, com uma única voz. Essa é intuição rara de acontecer. Com frequência tomo por um novo engano o meu que é dos outros. Quase sempre as duas vozes não se entrelaçam como a única voz. Como um coração ao sol. Ainda procuro isso. E os testemunhos dos outros que adoto, uso, roubo, digiro e agradeço, e que de facto colidiram comigo em algum momento e comoveram são instrumentos de acesso ao íntimo. Posso tentar escondê-los de mim, como a criança que joga às escondidas consigo mesma, fazendo que não se vê, vendo-se. Mas são meus ou não? Os textos? As palavras? As imagens? Até que ponto sou senhor de mim e da minha voz? Quem sou eu e o que faço aqui? Posso afirmar que o digo é o que quero dizer? Que estou satisfeito e que fiz sempre o melhor que podia? Creio que não. O engano perpetua-se. E, no entanto, isso continua a alimenta o sonhar os meus sonhos. Porque ver uma coisa a perder-se não me faz sentir bem.
I feel the writing as an interior gesture that when it passes outside - to the shared world – is similar as putting the bowels on the sun, or perhaps is better to say that when I write I make a heart from bowels. Or, in this case, I build a prayer of the flash. Or maybe it's just a special gesture that, at the end, is nothing. A wonderful deceit of the heart carried by the head. What is painful and fearful at this strange and untranslatable point called heart? Or lung, backbone or instant lights behind the eyes? They are all scattered points on what we undeniably call the dark form: the body. And light up, on the light of the days, what is at the bottom to what passes up. The intestines to mouth, the heart to hand. For years I have been pursuing this feeling that escapes as if it were a paper stored among thousands of other spoils that life and confusion has been accumulating - in this case I - on shelves, boxes and capsules of time. It is a feeling of being lost and of searching without finding. Something imprecise, confusing and without names to give. No language exists that satisfies it and gives its way. It is something of the domain and the territory of dreams. Therefore, these texts are derived from readings and encounters with others that after all they are the organs of my body exposed to the happening of everyday existence. We are the same person, but we are not the same person. The conversation and the talk are forms of art that we practice without ceasing and that seem unimportant to us. But they are not. I love, in the pleasure of the flesh, other authors and the purpose of citing and creating by successive accumulations of phrases and texts from others. Wandering about the works of others became a natural obsession, which led me to maintain inside an impediment of finding that point of the heart, this organ source, that heat pump from which the blood spreads and develops the flesh that involves the world and involves me as well. Therefore, in the last days that precedes the beginning of a new work, I dream with a repeated theme. A feeling that walks lost in the body without finding any way out. The horror of not finding ways out or finding the documents - the luminous ideas - that I had here, right now, ahead of me and nobody knows where they are or who took them away. Or as someone who says, the words, the ideas, the images, the senses. I distrust myself. I really believe that it was me, the one who took that from the front, that was there to distress me and mystify the permanent search. Like a dark lake where I hide and without success the search exhaust. And the most curious thing is to realize that this is what gives me pleasure. Being and staying in a situation of suffering, confusion and indecision that allows me to continue the walk. An absolute absurdity of being a confused being and from that, to draw pleasure and immensity. I have taken time to understand the relation between so many things that always arise, when we are allowed to say. Now that I am at this stage of deciding about what to say with this new creation - the relation between searching ideas and giving them meaning and some order - I refer again to the source impulse that makes me repeatedly want to conceive. Acutely I have spent time in search of a voice. Something mine, that forces me to the inner world in which I see myself moving and in which I flee from myself. I have therefore read and thought, written and rewritten over and over again sentences that are mine and from others. Gradually I feel that emerges what is mine. But always remains the feeling that I could have done more and better. That I could have gone higher and farther. That sensation, rarely achieved, of superimposing the animal that exists inside the flesh, to the other animal that exists in public, with one single voice. This is rare intuition that happens. Frequently, I can be deceived and pass that deception on to others. Almost always the two voices do not intertwine as single voice. Like a heart on the sun. I am still searching for this. And the testimonies of others that I adopt, use, steal, digest, and I am grateful, and that in fact collide with me at some point and commove me, are instruments of intimacy. I can try to hide them from me, like the child who plays hide-and-seek with himself, making not to see himself, seeing himself. But are they mine or not? The texts? The words? The images? To what extent am I master of myself and of my voice? Who am I and what am I doing here? Can I say that what I say is what I mean? That I am satisfied and that I always did the best I could? I do not think so. The deception perpetuates itself. And yet, this continues to nourish the dreaming of my dreams. Because seeing something wandering does not make me feel
good.