Casa de Bernarda Alba

texto original de Federico Garcia Lorca

adaptação, encenação e espaço cénico de João Garcia Miguel

Ficha Técnica e Artística

Textos Originais: Federico García Lorca
Adaptação, Encenação e Espaço Cénico: João Garcia Miguel
Elenco: Sean O’Callaghan, Sara de Castro, Beatriz Godinho e Duarte Melo
Música: Ricardo Martins
Figurinos: Rute Osório de Castro
Fotografia e Promoção: Mário Rainha e Joana Júdice
Direção de Produção: Georgina Pires
Relações Internacionais: Vesela Molovska
Assistente de Encenação: Rita Costa
Imagem e Comunicação: Joana Júdice
Direção Técnica: Roger Madureira
Assessoria de Imprensa: Alcina Monteiro

Technical and Artistic List

Original Text: Federico García Lorca
Director, Scenic Space & Text: João Garcia Miguel
Cast: Sean O’Callaghan, Sara de Castro, Beatriz Godinho e Duarte Melo
Music: Ricardo Martins
Costumes: Rute Osório de Castro
Images & Pomotion: Mário Rainha
Production Director: Georgina Pires
Internacional Relations: Vesela Molovska
Assistant Direction: Rita Costa
Image & Communication: Joana Júdice
Technical Director: Roger Madureira
Press Assessor: Alcina Monteiro

Co Produção

Companhia João Garcia Miguel | Teatro Ibérico DGARTES | Governo de Portugal | Teatro-Cine de Torres Vedras, CMTV | Teatro Aveirense, CMA| Junta de Freguesia do Beato | IEFP

Coproduction

Companhia João Garcia Miguel | Teatro Ibérico DGARTES | Governo de Portugal | Teatro-Cine de Torres Vedras, CMTV | Teatro Aveirense, CMA| Junta de Freguesia do Beato | IEFP

Apoios

Teatro da Garagem, São Paulo, IFICT, CML

Supports

Teatro da Garagem, São Paulo, IFICT, CML

Parceiros

TAGV — Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra, Teatro Eduardo Brazão, Bombarral, Cine Teatro Castelo Branco, Festival Y, Teatro Virgínia, Torres Novas, Teatro das Figuras, Faro

Partners

TAGV — Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra, Teatro Eduardo Brazão, Bombarral, Cine Teatro Castelo Branco, Festival Y, Teatro Virgínia, Torres Novas, Teatro das Figuras, Faro
Sinto a poesia, a vida, o olhar e a missão artística de Federico Garcia Lorca como uma conexão profunda com a terra e o corpo. Esses são como parceiros e cúmplices de sempre, antigos. A ligação com a escrita e o universo de Lorca é um entendimento do cosmos, uma herança perdida e reencontrada que se funda na lama em que se mergulha, procurando as sementes de flores. E a música. A escolha de A Casa de Bernarda Alba é um apelo contra o isolamento que aumenta no mundo. É por isso um libelo, um resistir. Regressaram as figuras de “Bernardas Albas” crescendo à
luz cruel dos nossos dias, como monstros que despedaçam vidas. As “Bernardas Albas” fecham as casas, que é como quem diz, as nossas instituições tornando-as a cada dia mais coercivas. Em definitivo há que continuar a lutar porque as oportunidades não são iguais para todos. As “Bernardas” propagam discursos onde subentendem mecanismos de repressão e censura como se defendessem liberdades. Fazem-nos confusos. A diminuição da liberdade do indivíduo é uma atividade diária, uma sucessão de acontecimentos que não se conseguem repudiar e que nos acometem e acantonam em “existências prisão”. O medo deita-se connosco todas as noites. A ameaça da “morte do pai” – aquele que nos pode salvar e conduzir a um futuro melhor e brilhante é constantemente invocado. Fazem-nos órfãos do futuro e do passado. A exacerbação do presente ameaçador e perigoso é uma força que asfixia e atrofia os músculos do entusiasmo e da vontade de viver. Por oposição natural, a força da terra e da Deusa Mãe reacende-se e ressurge de modo confuso e paradoxal imprimindo aos corpos de homens e mulheres um grão de insanidade insurgente. O medo do corpo que se infantiliza e recusa morrer, procurando fixar-se num perpétuo presente imutável, amplia a perceção dos cinco sentidos. Na peça, é a morte do pai que precipita a clausura e opressão das mulheres. No mundo, é a separação do passado e a desagregação do presente que levanta sentimentos de desproteção e autoriza a escalada da opressão. Ao futuro só chegaremos se formos obedientes e cumprirmos todas as regras. As que existem e as que ainda serão criadas. As circularidades asfixiantes dos poderes autoritários disfarçados de gestos democráticos, exercem crescentes influências limitadoras das liberdades individuais. O gigantismo das grandes instituições e estruturas sociais adaptadas a uma globalização invasiva, desenvolvem formas de despotismo aberto, sem pudor nem freio que as contenham. É o poder das novas ditaduras sociais que em nome da segurança, impõem ao cidadão global regras de conduta e de transparência que condenam a intimidade e a privacidade — como Bernarda Alba o exerceu em sua casa. Essas novas formas de poder surgem associadas às ordens e regras que as instituições sociais nos vão, suave e gentilmente, agrilhoando. O corpo e a terra precisam de falar. Demos-lhe a voz que Lorca nos deixou. Quanto à metodologia de trabalho esta segue um processo de reescrita do texto a partir de um processo performativo de experimentação e pesquisa com os atores. O texto de Federico Garcia Lorca é um pretexto para a criação sendo a autoria do texto final de João Garcia Miguel.
I feel the poetry, the life, the profound gaze and the artistic mission of Federico Garcia Lorca as a deep connection with earth and body. These are like old partners and accomplices. The connection with Lorca's writing and universe is an understanding of the cosmos, a lost and rediscovered inheritance that melts in the mud in which one dives, looking for the seeds of flowers. And the music.
The choice of The House of Bernarda Alba is an appeal against the increasing isolation in the world. That is why it is a libel, a resist. The figures of "Bernardas" grew back into the cruel light of our day, like monsters that shatter lives.
The "Bernardas Albas" close the houses, our institutions are more and more coercive. We must continue to fight because the opportunities are not equal for all. “Bernardas” propagate speeches where they imply mechanisms of repression and censorship as if they defend liberty. They confuse us. The diminution of the freedom of the individual is a daily activity, a succession of happenings that cannot be repudiated and that affect us and settle in "prison existence". Fear lies with us every night. The threat "death of the father" – the one who can save us and lead to a better and brighter future is constantly invoked. They make us orphans of the future and the past. The exacerbation of the threatening and dangerous present is a force that suffocates and atrophies the enthusiasm muscles and the will to live.
By natural opposition, the force of the earth and the Mother Goddess reawakens and reappears in a confusing and paradoxical way, imparting to the bodies of men and women a grain of insurgent insanity. The fear of the body that infantilizes itself and refuses to die, seeking to establish itself in a perpetual unchanging present, enlarges the perception of the five senses. In the play, it is the death of the father that precipitates the closure and oppression of women. In the world, it is the separation from the past and the disintegration of the present that raises feelings of helplessness and authorizes the escalation of oppression.
We will only come to the future if we are obedient and abide by all the rules. Those that exist and those that will still be created. The suffocating circularities of the authoritarian powers disguised as democratic gestures, are exerting increasing influences limiting individual freedoms. The gigantism of the great institutions and social structures adapted to an invasive globalization, develop forms of open despotism, without modesty or brake that contain them. It is the power of new social dictatorships that, in the name of security, impose on the global citizen rules of conduct and transparency that condemn intimacy and privacy - as Bernarda Alba did at home.
These new forms of power emerge associated with the orders and rules that social institutions kindly and gently are clinging to. The body and the earth need to speak.
We gave him the voice that Lorca left us.
As for the work methodology, this process follows a rewriting of the text from a performative process of experimentation and research with the actors. The text of Federico Garcia Lorca is a pretext for creation being the author of the final text João Garcia Miguel.