Sinopse     

Sinto a poesia, a vida, o olhar e a missão artística de Federico Garcia Lorca como uma conexão profunda com a terra e o corpo. Esses são como parceiros e cúmplices de sempre, antigos. A ligação com a escrita e o universo de Lorca é um entendimento do cosmos, uma herança perdida e reencontrada que se funda na lama em que se mergulha, procurando as sementes de flores. E a música. A escolha de A Casa de Bernarda Alba é um apelo contra o isolamento que aumenta no mundo. É por isso um libelo, um resistir. Regressaram as figuras de “Bernardas Albas” crescendo à luz cruel dos nossos dias, como monstros que despedaçam vidas. As “Bernardas Albas” fecham as casas, que é como quem diz, as nossas instituições tornando-as a cada dia mais coercivas.

Em definitivo há que continuar a lutar porque as oportunidades não são iguais para todos. As “Bernardas” propagam discursos onde subentendem mecanismos de repressão e censura como se defendessem liberdades. Fazem-nos confusos. A diminuição da liberdade do indivíduo é uma atividade diária, uma sucessão de acontecimentos que não se conseguem repudiar e que nos acometem e acantonam em “existências prisão”. O medo deita-se connosco todas as noites. A ameaça da “morte do pai” – aquele que nos pode salvar e conduzir a um futuro melhor e brilhante é constantemente invocado. Fazem-nos órfãos do futuro e do passado. A exacerbação do presente ameaçador e perigoso é uma força que asfixia e atrofia os músculos do entusiasmo e da vontade de viver.

Por oposição natural, a força da terra e da Deusa Mãe reacende-se e ressurge de modo confuso e paradoxal imprimindo aos corpos de homens e mulheres um grão de insanidade insurgente. O medo do corpo que se infantiliza e recusa morrer, procurando fixar-se num perpétuo presente imutável, amplia a perceção dos cinco sentidos. Na peça, é a morte do pai que precipita a clausura e opressão das mulheres. No mundo, é a separação do passado e a desagregação do presente que levanta sentimentos de desproteção e autoriza a escalada da opressão. Ao futuro só chegaremos se formos obedientes e cumprirmos todas as regras. As que existem e as que ainda serão criadas. As circularidades asfixiantes dos poderes autoritários disfarçados de gestos democráticos, exercem crescentes influências limitadoras das liberdades individuais. O gigantismo das grandes instituições e estruturas sociais adaptadas a uma globalização invasiva, desenvolvem formas de despotismo aberto, sem pudor nem freio que as contenham.

É o poder das novas ditaduras sociais que em nome da segurança, impõem ao cidadão global regras de conduta e de transparência que condenam a intimidade e a privacidade — como Bernarda Alba o exerceu em sua casa. Essas novas formas de poder surgem associadas às ordens e regras que as instituições sociais nos vão, suave e gentilmente, agrilhoando. O corpo e a terra precisam de falar. Demos-lhe a voz que Lorca nos deixou. Quanto à metodologia de trabalho esta segue um processo de reescrita do texto a partir de um processo performativo de experimentação e pesquisa com os atores. O texto de Federico Garcia Lorca é um pretexto para a criação sendo a autoria do texto final de João Garcia Miguel.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA

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CRÉDITOS

jgm – joão garcia miguel
Rua Carlos Mardel 113 R/C Dto – 1900-121 Lisboa, Portugal
tlm: +351 933 327 229
georgina@joaogarciamiguel.comjoaogarciamiguel.com

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA​

Textos Originais: Federico García Lorca
Adaptação, Encenação e Espaço Cénico: João Garcia Miguel
Elenco: Sean O’Callaghan, Anette Nayman ou Sara Castro, Paula Liberati ou Beatriz Godinho e Duarte Melo
Música: Ricardo Martins
Figurinos: Rute Osório de Castro
Direção Técnica: Roger Madureira
Fotografia e Promoção: Mário Campos Rainha e Mariana Silva
Direção de Produção: Georgina Pires
Relações Internacionais: Vesela Molovska
Imagem e Comunicação: Joana Júdice
Assistente de Encenação: Rita Costa
Assessoria de Imprensa: Alcina Monteiro

co-Produção

Companhia João Garcia Miguel | Teatro Ibérico | Teatro-Cine de Torres Vedras, CMTV | Teatro Aveirense, CMA

Financiamento

A Companhia João Garcia Miguel tem o apoio do Ministério da Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura e da Direcção Geral das Artes

APOIOS

Teatro da Garagem – São Paulo, IFICT, CML, Junta de Freguesia do Beato | IEFP | TAGV — Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra, Teatro Eduardo Brazão, Bombarral, Cine Teatro Castelo Branco, Festival Y, Teatro Virgínia, Torres Novas, Teatro das Figuras, Faro