Sinopse     

Jaime Batalha Reis diz de seu amigo Eça de Queirós que este através dos contos que compôs e que foram editados postumamente arquitetou um “Poema Fantástico”. Dizemos nós que esse poema imprimiu entre linhas a juventude de uma época em Portugal e cujas influências são já as que descem de uma Europa do Norte. Esboçam-se, neste conjunto de textos, um imaginário povoado de sonhos e visões que se impõem como rasgões sobre um mundo que se descolava. Cada texto é um manifesto, uma paixão exposta. Uma montanha que se sobe e se aproxima do transcendente ou de Deus talvez. São estes textos uma coleção de gritos adolescentes aos quais Eça apelidou mais tarde: Prosas Bárbaras. Estavam neles escondidos, mas expostos as vozes, os desejos, as iluminações de homens do Sul, esses bárbaros que vivem entre a terra e o mar. Hoje, estes bárbaros escondidos entrelinhas nestes textos, saltam-nos ao caminho e incendeiam-nos a imaginação. Interpelam-nos e confrontam-nos, à vez, saídos de entre um mundo ingénuo e outro desapiedado.

Na sua introdução à obra, Batalha Reis — um texto que contribuiu para a nossa escolha pela quantidade de informações biográficas que nele existem — alerta-nos para a questão da alma como elemento que ali surge como um animal ferido e em extinção. Ao qual Eça e os seus amigos do sul parecem dar um sentido de exceção. Diz Batalha Reis: «(…) O Universo é um infinito de almas. As coisas têm sentimentos humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverização de todas as mortes (…)”. É essa alma que se preserva a custo e que fácil desaparece — tímida ou magoada — que nos apaixonou nos contos destes bárbaros. São as almas desses bárbaros que ali se sujam e se pintam em cada gesto que nos arrancou da distração desta vida civilizada. Vivemos tempos de demasia em tudo: meios, palavras, civilidades. Ausentaram-se o fogo das fogueiras bárbaras, as fagulhas soltas e esparsas no céu nocturno, os tempos incendiados das nossas vidas.

Lisboa está, esteve talvez há pouco, à mercê desse apelo que se solta nas Prosas Bárbaras. A vinda de europeus e não europeus para Lisboa em busca de um tempo de aventura e romance para as suas vidas trouxe-nos uma febre de viver que é nossa, que é compulsiva, que é do sul. Aqui se têm mantido e alimentado essas febres por debaixo de tudo — sem que se faça isso de forma deliberada ou por sistema — apenas e só pelo sul e pelo vento de uma paixão livre. Um amor da luz que há cá dentro. O próprio Eça escreve no conto “Uma Carta”: «(…) A Arte é a história da alma. Queremos ver o homem – não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes (…) mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões (…)».

Esta obra tem um enquadramento que importa partilhar. Coincide com um desejo de abertura da Companhia ao exterior que se materializou numa chamada aberta a novos actores. Recebemos 250 candidaturas. Selecionámos 100 que visualizamos e com quem dialogamos. Desses foram escolhidos 20 que fizeram um workshop de formação e criação durante uma semana. Utilizamos excertos dos textos de Eça de Queirós tanto no casting — fornecendo aos candidatos esse material para ser trabalhado e a partir do qual lhes propusemos construir a sua apresentação. Acrescemos mais material para o workshop com a mesma base — as Prosas Bárbaras. Para começar o workshop — além da seleção de textos de Prosas Bárbaras — realizamos um inquérito com 200 perguntas que lançámos aos intérpretes e que nos acompanharam nesses dias de reconhecimento mútuo. Aí se desenhou um primeiro mapa de intimidades. Do passado, da infância, do que cada um vê para trás e para a frente. Cruzámos biografias, fantasias e ilusões.

A partir da escolha dos sete actores que ficaram para a peça que agora aqui apresentamos escrevemos um texto que incluiu todo este processo e ainda novas fontes. À semelhança de Eça que leu o seu tempo através dos textos de outros criadores e os transformou em algo pessoal que inaugurou e reviu os conceitos de autoria noutra perspetiva, usámos os textos dispersos e a energia contida neles desde o século XIX para construir um novo discurso. Somos agora os novos bárbaros — que de forma velha se lançam nas livres paixões de viver o seu tempo e esta febre que nos assola e empurra.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA

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CRÉDITOS

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Rua Carlos Mardel 113 R/C Dto – 1900-121 Lisboa, Portugal
tlm: +351 933 327 229
georgina@joaogarciamiguel.comjoaogarciamiguel.com

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA​

Direção, Espaço e Texto: João Garcia Miguel

[a partir de Prosas Bárbaras de Eça de Queiroz]

Intérpretes: Helena Dawin, Lena Edvardsen, André Marques, Manuel Sá Pessoa, Diogo Tormenta, Nilson Muniz, Sérgio Gomes

Música: Ricardo Martins

Artista Plástico: Mario Duarte

Assistente de Encenação: Sara Ribeiro

Figurinos: Rute Osório de Castro

Iluminação e Direção Técnica: Roger Madureira

Direção de Produção: Georgina Pires

Assistente Técnico: Luís Gomes

Legendagem: Paulo Quedas

Vídeo: Bruno Canas

Assessoria de imprensa: The Square — Raquel Alfredo

Imagem & Comunicação : António Osório dos Santos

Estagiárias: Rita de Jesus e Rita Seco

Apoio Teatro Ibérico: Rita Costa

Apoio Técnico: Audex

co-Produção

Teatro Ibérico

Financiamento

A Companhia João Garcia Miguel tem o apoio do Ministério da Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura e da Direcção Geral das Artes

APOIOS

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